terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A ESTRADA

A Estrada pela qual entrei era sinuosa, cheia de curvas, altos, baixos. Caminhei, caminhei, caminhei...
Avistei um posto abandonado a minha frente, e o velhinho que o guardava me explicou que o caminho que procurava estava há uns 5 kilômetros a diante. Na verdade andei um pouco mais.
Mas, logo avistei o lugar procurado. Entrei e fiquei observando aquele lugar esplêndido, cheio de flores. Eram das mais variadas espécies, cores, espessuras, tamanhos, cheiros incríveis e indescritíveis.
Sentei e comecei a deixar minhas lembranças aflorarem, lembrei daquele curso. Era Janeiro, verão, férias, São Paulo continuava nublada e chuvosa. A sala era pequena e as pessoas extraordinárias. Senti-as cada uma de uma maneira diferente em suas essências únicas. Guardei cada uma de um modo especial em meu coração...
Levantei e iniciei meu caminho de volta. A Estrada estava ótima, como foi boa a volta!!! A luz do sol batia em meus olhos, o cheiro das flores era cada vez mais doce...
E o velhinho??? Ah!!! O velhinho continuava no mesmo posto abandonado.


Marcela Lucatto.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O sol lambe preguiçosamente a manhã de domingo, gato angorá jogado sobre almofada carmim no canto da poltrona da vó. As crianças zunem pela sala, comentam os carrinhos que o encarte colorido promove e embaralham o jornal. Tomo mais uma xícara do café feito logo cedo, suspiro, um formigamento leve na ponta dos dedos, um delicado aperto no peito, flashes de nossos encontros durante a semana do curso de férias. Brincadeiras. Risos. Olhares. Botas e saltos. Textos e falas e cenas e descobertas. Acolhimento. Dá saudade. Uma dorzinha. Deixa ela pra lá. Vamos em frente. Dar ninho pro carinho. Abraçar, em pensamento e neste pequeno texto, um a um, meus maravilhosos "alunos", que durante quatro dias conduziram esse tosco sujeito para novas paragens que, com alegria, agora vou explorar. Obrigado.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

85 anos de histórias para não lembrar - Por Ana Cláudia Faccin

Lá estavam três gerações. Era o vô Jayme, meu pai e eu. O vô estava deitado numa cama hospitalar. Meu pai ao lado dele segurando sua mão e eu aos pés da cama, sentada numa poltrona. Na parede, um quadro do vô Jayme com uma risada gostosa e pernas cruzadas, como ainda posso me lembrar... do lado esquerdo do quarto aparelho de drenar secreção do pulmão e do outro aqueles negócios de pendurar soro. Não conheço os termos técnicos, mas não é nada demais.Pois estávamos nós três. Na tentativa de tirar alguma palavra do vô Jayme, apertei seu nariz e disse: "piiiiiiiiii...". Eu queria que ele respondesse "poca" como sempre fazia, aliás, como ele mesmo um dia me ensinou. Pois bem, apertei seu nariz e disse "piiiiiiiii..." e ele, nada. Mais uma vez: ele sorriu. Mais um "piiiiii" e ele soltou outro "piiiiii".- Não, vô. É pra você falar "poca". Daí fica "pipoca", entendeu? - Disse isso mas na verdade não adiantou nada, porque ele se esquece de tudo num minuto. Voltei a me sentar.Daí foi a vez do meu pai contar uma história pra ele: "Pai, tinha um vendedor de amendoim muito preguiçoso e todos os dias ele ia na porta da igreja e esperava o padre dizer AMÉM, e ele dizia....ele dizia....". Era pro meu vô falar "DOIM", mas ele não falou nada. Essa era uma história que meu avô contou pro meu pai e por consequencia eu também conheci de tanto que meu avô nos contava.Eu, sentada na poltrona pude assistir a cena de camarote. Meus pensamentos voaram pra longe e fiquei imaginando meu pai pequeno e meu avô sentado em sua cama, contando-lhe uma história. E qualquer semelhança pode até ser mera coincidência, mas meu pai estava ao lado da cama dele contando-lhe uma história. Era uma cena bonita de se observar, talvez apenas como um mero espectador. Não sei se como personagem principal o belo se transforma em tristeza. Bom, dizem por aí que não haveria a poesia se não houvesse a dor, tampouco a luz sem o escuro. No entanto, me sinto como personagem secundária e mesmo assim não sei explicar o que sentia naquele momento. Era um misto de tudo e de amor, se é que posso ser compreendida.Ao sair, beijei a testa do vô Jayme e eis que para minha surpresa ele me perguntou: "Onde você vai?", e eu respondi: "passear, quer ir?". Ele me respondeu: "Não...não"Virei as costas, apagamos e luz e saimos